Apesar de ser o maior produtor e exportador de café do mundo, o Brasil ainda tem uma participação relativamente pequena no segmento de cafés especiais, uma categoria que agrega valor, qualidade e diferenciação ao produto.
Um estudo recente publicado na revista Scientific Reports, intitulado “Production and trade of specialty coffee in Brazil”, e assinado por Gustavo Hiroshi Sera, Bruno Volsi, Valdir Mariucci Júnior, Carlos Theodoro Motta Pereira e Tiago Santos Telles, analisou como esse mercado está estruturado no país.
A pesquisa traz um retrato detalhado da produção, das tecnologias adotadas e dos principais gargalos que ainda limitam o crescimento do setor.
Produção concentrada e ainda limitada
Embora o Brasil produza cerca de um terço do café mundial, apenas uma pequena parcela desse volume se enquadra como café especial.
Segundo o estudo, a produção está fortemente concentrada em poucas regiões, com destaque para Minas Gerais, responsável por cerca de 82% da área analisada entre produtores associados à Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).
Outros estados, como São Paulo, Goiás e Paraná, também aparecem no mapa, mas com participação bem menor.
A concentração geográfica não é por acaso. Regiões como o Sul de Minas e a Mogiana paulista combinam fatores essenciais para a produção de cafés de alta qualidade:
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altitude elevada
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clima mais ameno
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infraestrutura consolidada
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acesso a cooperativas e exportadores
Qualidade depende de muito mais do que a variedade
A qualidade do café especial não está ligada apenas à genética da planta. O estudo mostra que ela é resultado de uma combinação de fatores que incluem:
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condições climáticas
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práticas de cultivo
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controle de pragas e doenças
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colheita
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processamento pós-colheita
Embora variedades tradicionais como Mundo Novo, Catuaí e Bourbon sejam amplamente utilizadas, o levantamento aponta um aumento no uso de cultivares com maior resistência a doenças e estresses climáticos.
Entre elas, estão variedades com genes de outras espécies de café, como o Coffea canephora, que oferecem maior produtividade e resiliência, sem necessariamente comprometer a qualidade sensorial.
Certificação: diferencial estratégico, mas não suficiente
Outro ponto destacado pela pesquisa é o papel das certificações.
Selos como Rainforest Alliance, UTZ Certified e Certifica Minas estão presentes em grande parte das propriedades analisadas.
Essas certificações garantem práticas ambientais, sociais e de gestão, além de facilitar o acesso a mercados internacionais mais exigentes.
No entanto, os autores reforçam que a certificação, por si só, não define um café como especial. O principal critério continua sendo a qualidade sensorial, avaliada por protocolos internacionais.
Processamento: fator decisivo para o sabor
O estudo também analisou os métodos de processamento utilizados pelos produtores brasileiros.
Os principais são:
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via seca (natural)
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via úmida
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via semisseca (cereja descascado)
A pesquisa aponta que o método semisseco é o mais adotado no Brasil, principalmente por permitir melhor controle da qualidade quando há mistura de frutos em diferentes estágios de maturação.
Ainda assim, os autores destacam que não existe um método universalmente superior.
O resultado final depende mais de como o processo é conduzido do que da técnica em si.
Cadeia produtiva ainda é desigual
A análise da cadeia produtiva revela uma estrutura complexa, que envolve desde fornecedores de insumos até exportadores e o mercado consumidor.
Apesar dos avanços, o estudo aponta que essa cadeia ainda é desigual no país.
Minas Gerais se destaca novamente por concentrar:
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armazéns certificados
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corretores especializados
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infraestrutura logística
Já em outras regiões, a ausência desses elementos dificulta o acesso ao mercado de cafés especiais.
Principais desafios do setor
Mesmo com crescimento e maior reconhecimento internacional, o café especial no Brasil enfrenta obstáculos importantes.
Entre eles:
Alto custo de produção
Investimentos em equipamentos, certificação e rastreabilidade são elevados.
Falta de infraestrutura
Poucas regiões contam com armazéns e exportadores especializados.
Acesso limitado à assistência técnica
Pequenos produtores têm dificuldade para adotar tecnologias.
Mercado restrito
Ainda há poucos compradores focados em cafés especiais.
Oportunidades em expansão
Apesar das limitações, o cenário é promissor.
A pesquisa destaca que o setor pode crescer impulsionado por:
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aumento da demanda global por produtos diferenciados
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valorização da sustentabilidade
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expansão do consumo interno de cafés especiais
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novas estratégias de comercialização direta
Esse movimento indica que o café especial pode se tornar uma importante fonte de renda para produtores brasileiros, desde que haja investimentos em estrutura e capacitação.
Conclusão
O Brasil reúne condições naturais e técnicas para liderar o mercado global de café especial. No entanto, a expansão desse segmento depende de superar barreiras estruturais que ainda limitam o acesso de muitos produtores.
Como mostra o estudo publicado na Scientific Reports, o futuro do café especial no país está menos ligado à quantidade produzida e mais à capacidade de gerar qualidade, valor e diferenciação.